segunda-feira, junho 23, 2008

Intransigentes ou De quem nos move.

Quem tem consciência para ter coragem

Quem tem a força de saber que existe

E no centro da própria engrenagem

Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado

Quem já perdido nunca desespera

E envolto em tempestade, decepado

Entre os dentes segura a primavera!


A música dos Secos & Molhados expressa um sentimento de continuidade na defesa intransigente daquilo que acreditamos. Segurar a primavera entre os dentes é mais do que um simples dever, uma condição humana daqueles que acreditam em cada palavra do que dizem. O melhor compromisso assumido para com as nossas consciências.

Não se trata de ser intransigente, mas de mantermos sempre a cabeça erguida, com o nosso orgulho intocável, não na concepção de sobreba, empáfia ou presunção, mas na de brio, altivez e amor-próprio. Amor por aquilo que somos e defendemos. Por não modificarmos o nosso discurso com a finalidade de sermos mais dóceis ou parecermos mais domesticáveis. O nosso orgulho nos impede de fingirmos ser o que não somos. De acenarmos com gostos ou predileções que não dispomos.

Sob a relíquia de tão caros sentimentos é que se amolda a "consciência [suficiente] para ter coragem"; encontra-se a força, não se vacila, não se entrega, simplesmente, se é. Existe.

Quem caminha nesse campo não perde. Nunca é derrotado, pois sempre traz consigo "a primavera" entre os dentes. A esperança da vitória, do florescer. A necessidade de luta. E assim, além destacar tais valores e mostrar sua força, move pessoas a caminharem juntos no mesmo sentido, não para simplesmente "vencer" - o que seria pueril e temporalmente identificável - mas, sim, para, na luta, permanecer cotidiana e permanentemente, revolucionando o espaço e desafiando aquilo que aí se pôs.

sexta-feira, junho 13, 2008

Opressão ou O preso

O último gole do café amargo combinava com o final do telefonema. Felício, sentado, olhava para a parede branca. Sentia-se oprimido. Duzentas atmosferas pressionavam seus ombros na direção do centro da terra. O que queriam dele era pesado. O peso arranhava sua garganta, seu estômago; tornava azedo o sabor de tudo o que provava na vida. Ou será que era insípido o que experimentava? Não sabia. Sentia, apenas, que sua visão não era mais tão larga, restringia-se a pontos fixos, sem a percepção do entorno, sem a compreensão do mundo.

Resolveu sair para caminhar. Era seu horário de almoço. Despediu-se rapidamente dos colegas da repartição onde desempenhava seu trabalho sem graça e saiu pela porta. Duas horas depois, nunca mais voltou.

Até hoje sua família e amigos buscam notícias de Felício. Boatos sobre ele são vários, mas nenhum que se possa dar real confiança. Ninguém sabe ou compreende como alguém que sempre parecera tão alegre e entusiasmado com a vida, simplesmente, anonimamente, sumiu...

Seus últimos relatos falavam da tal opressão. O que era tão grave? Perguntavam os amigos e a família, ele dizia que nada de específico. A vida se tornara pesada, o ar era chumbo, as trivialidades não arejavam sua existência com o perfume das flores, mas sim, permeavam com cheiro de enxofre seu olfato cotidiano.

O mais belo se tornara cinza, o mais alegre, ácido, o mais suave, em áspero. Nada mais lhe motivava. Buscava novas atividades como forma de espanar a rotina e ser reconquistado pela vida. Não adiantava, nada lhe satisfazia. Só de ouvir o seu telefone tocar, murchava, afundava em sua cadeira. Sentia sua garganta fechando. Vontade de chorar...

A verdade? Hoje se encontra em um lugar distante na América do Sul. Entre bicos, de tempos em tempos, consegue meios de subsistência. Seu celular não toca mais - aliás, deixara sobre sua mesa, no dia de sua fuga, talvez a sua mais brilhante decisão. Às vezes não tem dinheiro, em muitas sente frio... não freqüenta os lugares charmosos que tanto esteve e nem mesmo mais que cinco livros possui... porém, voltou a ver o sol brilhar, ao menos agora o percebe... ouve os pássaros cantarem, as suas noites são cobertas por estrelas que brilham sem parar... e, ainda, hoje ri, quando vê alguém agoniado, a correr sem parar, como se a querer carregar o mundo sobre os ombros...

sexta-feira, maio 16, 2008

Do fim da cordialidade ou Quando a educação deixa de ser virtude

Sempre ouvi dizer que a boa educação era uma virtude, um valor. O tempo passa e constato que fui iludido. Respeitar filas, vagas para deficientes, ser cortês e preocupar-se em não atrapalhar a vida alheia com o nosso egoísmo passaram a ser, apenas, formas de demonstração da nossa fragilidade enquanto seres humanos e conseqüente sinalização para que nossos direitos não sejam respeitados.

Há muito, em nosso país, a falta de consideração, a grosseria, a indelicadeza e a descortesia passaram a ser virtudes. Caso não o fossem, não haveria razão para aqueles que agem de tal forma serem privilegiados em relação aos débeis corteses.

Não, não estou equivocado. É assim em quase todos os lugares que freqüentamos: os “barraqueiros” que ofendem, humilham, gritam, furam a fila ou buzinam, têm o acolhimento de suas pretensões. Os educados, que demonstram o seu posicionamento ou descontentamento com educação e até, por vezes, doçura, são presenteados com a indiferença e com o não acolhimento de seus pleitos.

Diante de tal constatação, não há como negar que a boa educação deixou de ser virtude, até porque somente os atos virtuosos é que são presenteados. No caso, aquilo que nossos avós chamavam de má educação passou a ser uma forma de cada um expor a sua “virtude”, caso não o fosse, certamente seus pleitos não seriam atendidos.

Não há como compreender tais fatos de outra forma. Como se sabe, os valores sociais mudam com o passar do tempo e, tal qual o camaleão altera a sua coloração diante do ambiente em que se encontra, amoldam-se às novas formas de compreensão das relações humanas que se apresentam.

A velocidade, a pressa, enfim, o imediatismo da sociedade tecnológica do século XXI impõe novas compreensões e interpretações de fatos, talvez, até, a de que aquele que não age da forma dita pelos anciãos como educada não deva ter tanta necessidade de reconhecimento de seu direito. Ao menos, é a explicação pela qual compreendo tal fenômeno. Afinal, quem não se desespera com a perda de tempo, certamente, é um dinossauro na forma de mulher ou homem, mas nunca o “homo-tecno-sapiens” de nosso tempo.

Apesar de compreender tal fato, não me entrego. Ainda, nos pequenos momentos em que tenho de optar em privilegiar esta ou aquela pessoa no trato, não opto pela rudeza, mas sim, por aqueles que, mesmo na defesa de seus interesses olham o outro com respeito, com a mesma consideração que gostariam que fosse dispensada consigo.

terça-feira, maio 06, 2008

Do gozo da vitória ou da alegria de recomeçar


Indescritível é a sensação da vitória. O gozo causado pelo objetivo alcançado gera um prazer somente repetível quando novamente o alcançamos. É por isso que se busca sempre o sucesso. Só quem nunca sentiu tal sabor é que pode conviver com sua ausência, pois quem não se inebria não compreende o significado do poder do vinho.

Tal sensação é capaz de viciar e, quando nos sentimos derrotados, de fazer sofrer muito mais. A inaptidão para vencer nos poupa da frustração da derrota. Só quem já venceu sofre, de verdade, com a perda. Quem não vence não sabe o sabor que deixou de sentir. Benefícios da ignorância.

A vitória está estampada no sorriso de quem conquista. Não se descreve, frui-se, goza-se ou, apenas, se aplaude. Quem tem um sorriso estampado no rosto, quase que diariamente, é um vencedor nato e quem está por perto tem duas alternativas: ou se contagia, ou inveja.

A realização no trabalho, a classificação em um concurso, alcançar o resultado em uma competição ou, simplesmente, ver o seu time ser campeão, são sensações que, de certa forma, entorpecem e criam a necessidade de vivenciá-las novamente. Quem não sente tal necessidade, talvez, tenha perdido o prazer naquilo que faz. Neutralizou sua vida. Transformou-a em água – necessária para nos manter vivos, contudo, sem graça. Quem sabe não seja hora de mudar? Talvez, de recomeçar.

Recomeçar, aliás, tal qual a vitória, traz similar satisfação, aliada a um sentimento de nervosismo e de inquietação da incerteza do futuro que (ainda não) se apresenta. Nunca é tarde pra recomeçar, para tomar novos rumos, para sairmos da famosa sensação de conforto e desafiarmos, talvez até irresponsavelmente, os olhos incrédulos daqueles que nos miram com desconfiança.

A vontade de recomeçar traz significado comum ao da sensação de vitória, pois só quem desafia o mundo, rasga as regras e renasce, sabe o que significa trilhar um novo caminho.

segunda-feira, abril 21, 2008

Entre Isabella e a novela ou Pimenta nos olhos dos outros é colírio ou, ainda, Que curiosidade mórbida é essa que nos move?

(a partir de hoje, o blog volta a ter atualização semanal)

Renato Russo, goste-se dele ou não, tinha razão quando escreveu ‘Metrópole’:

- É sangue mesmo, não é mertiolate/ todos querem ver/ E comentar a novidade/ É tão emocionante um acidente de verdade/ Estão todos satisfeitos/ Com o sucesso do desastre/ Vai passar na televisão/ Vai passar na televisão...

Se no início dos anos oitenta era assim, quando a instantaneidade dos meios de comunicação ainda engatinhava, imagine-se no final da primeira década do século XXI. Nossas casas são invadidas, cada vez mais, pela graça da desgraça alheia.

Sob o mito do “dever de informar” se informa o drama que melhor vende, não mais se forma, só informa... deforma... disforme...

E o cotidiano nacional se transformou na sala de estar da casa dos Nardoni, uma família desgraçada por uma tragédia, sejam os adultos responsáveis ou não pelo cruel homicídio. Pouco importa. Sem perceber e muito menos se preocupar com isso, os meios de comunicação condenaram duas crianças a uma sanção perpétua... Cauã e Pietro, os filhos de Alexandre e Anna Carolina foram sentenciados pelo resto de suas vidas a serem os irmãos da menina morta ou, como provavelmente restará decidido pelo Tribunal do Júri, os filhos de um “casal de assassinos” – não se adentra aqui sequer na questão jurídica, já que, frente aos “laudos secretos publicados com exclusividade”, discordo da “solução” apresentada por “especialistas” de plantão.

Confesso que tentei fugir ao máximo do tema Isabella, mas não consegui. Mas tenho outro enfoque – aliás, em relação a um terceiro olhar, indico www.atristeutopia.blogspot.com, de Leonardo Mendes.

Até que ponto necessitamos do espetáculo na vida alheia para preenchermos o vazio das nossas? Pouco importa o quão triste seja o tema da trama, o que arde nos olhos alheios não nos preocupa, ou será que as lágrimas que caem de nossos não são uma forma de aliviarmos a nossa própria culpa? Ou, será que passaremos a noite em claro pensando em Isabella e na angústia dos familiares e, porque não, dos acusados? Certamente, ficaremos alguns dias sem comer.

Que vazio é esse que nos leva a encontrar sentido somente na conversa sobre a vida dos outros? É o mesmo vazio que faz do Big brother um campeão de ligações telefônicas. A “novela das oito”, independentemente do horário, deixou de ser imbatível, pois a distração, o entretenimento, passou a ser mais interessante se os fatos são reais, pouco importando quão perniciosa tal exposição possa ser para os envolvidos.

As vidas carecem de sentido, de densidade, de conteúdo... fala-se sobre gente, só isso... a People oferece 8 milhões de dólares para ter exclusividade nas primeiras fotos dos gêmeos (provavelmente lindos) do casal Jolie/Pitt. Faturarão quatro vezes isso em vendagem de revistas com tal chamariz.

A idéias desfalecem em um mundo de personagens em que não se busca mais o conteúdo. Quem não sabe de quem é este ou aquele rosto famoso – do desgraçado ou do iluminado pela fama – não pertence à “realidade”: - em que mundo você vive?

Outros momentos da história assistiram a perda do conteúdo, melhor definido como valor (Roma foi um valor), mas não por muito tempo. Não, não estou falando do preço de capa...

terça-feira, março 11, 2008

Vigiados e torturados ou triste verdade.

Duas informações do último final de semana chamaram a atenção daqueles que defendem as liberdades civis ou, simplesmente, que acreditam na dignidade humana a partir de alguns primados trazidos pelos holofotes do iluminismo. De volta às trevas lê-se que, como apurado pela Comissão Parlamentar de Inquérito referente ao grampo telefônico, em 2007, quatrocentos e nove mil (409.000) telefones celulares foram grampeados com autorização do Poder Judiciário; a outra notícia é que, segundo pesquisa do Ibope, vinte e seis por cento (26%) dos brasileiros apóiam a realização de práticas de tortura de suspeitos nas investigações criminais. Provavelmente, o grampo telefônico estatal, se questionado por meio de pesquisa, teria quantidade similar de simpatizantes.

(silêncio para refletir, ou tentar interpretar tais dados)

Entre os entrevistados que apóiam a prática inquisitiva, tida na idade média como o meio mais eficaz para se alcançar a confissão “espontânea” do herege, estão os que possuem maior renda e maior escolaridade (40% dos que possuem curso superior) – ou seja, a sempre lembrada “ignorância” não justifica o resultado. Ou seria a própria “ignorância” que o justifica? Ignorância que divide a sociedade entre homens de bem e outros não tão bem assim; que ensimesmada solidifica um enredado discurso de “nós” e “eles”; que tão bem pugna por medidas violentas contra a violência, até o momento em que tal violência se vira contra ela e, aí sim, torna-se abuso e truculência...

Ao mesmo tempo, descobre-se que o democrático Estado brasileiro, por suas instituições, aproxima-se do “Grande Irmão” da novela de George Orwell (1984). São cerca de 1.120 (mil cento e vinte) determinações judiciais de escutas telefônicas por dia! Algo deveras distante do que se denominaria de inteligência policial.

Levando-se em consideração que estes 409.000 telefones judicialmente grampeados receberam, pelo menos, cinco ligações de pessoas que não eram objeto de investigação (número extremamente baixo), tem-se mais de dois milhões de pessoas que tiveram suas conversas escutadas pela Polícia brasileira. Ou seja, no mínimo, dez por cento (10%) do total de usuários de aparelhos celulares existentes no Brasil tiveram suas conversas devassadas pela sanha investigativa.

O desafio é como interpretar e compreender tais dados. O que significam?

Quanto às escutas, entendo que faliu o sistema investigativo policial brasileiro – sem escutas não fazem mais nada – bem como, sucumbiu o judiciário ao discurso utilitarista de que os fins justificam os meios. A Constituição estabelece como garantia fundamental o direito à intimidade e excepciona a quebra do sigilo. Qual a razão de tal previsão se a regra tornou-se a interceptação? Por que tanta hipocrisia?

Mais danoso a uma sociedade é a falsa liberdade do que a transparente ditadura, pois na primeira somos ludibriados em nossas esperanças, enquanto que na segunda, ao menos, não perdemos tempo sonhando.

domingo, fevereiro 17, 2008

Infantilizados ou Do hábito de chorar


Há tempos vivo com uma inquietação que, em determinados momentos, aflora. Uma terrível acomodação toma espaço cada vez maior no cotidiano. Vivemos em um ciclo vicioso onde as pessoas são infantilizadas pelo Estado ao buscar regular, exaustivamente, as condutas sociais. Os indivíduos, diante de tal situação, acomodam-se esperando que a “mãe-estado” estenda-lhes mais uma vez a mão para afagar-lhes a cabeça e protegê-los das condutas que “ameaçam” suas brincadeiras no parque de diversões da vida.

Se as pessoas deixaram de acreditar em si próprias e o legislativo passou a querer regular tudo diante de tal inércia, ou se o abuso legislativo levou as pessoas a um estado de total passividade, quase catatônico, ainda não consegui identificar, mas o que percebo é que a cada dia que passa mais me sinto infantilizado. Um menino que é levado pela mão, pela “mãe-estado”, a fim de que a sua vida seja a mais segura. Mesmo que eu dispense o interesse por segurança. O que seria um direito meu.

O excesso de normas leva à destruição da percepção do sujeito como capaz de exercer papel de mudança nos rumos da sociedade. O fetiche da lei inebria de uma sensação quase sexual legisladores e intérpretes, ávidos pela nova regulamentação que os levam ao quase-orgasmo apenas por pensarem que, a partir de então, a salvação de nossa sociedade está garantida.

Cada vez mais temos condutas proibidas dentro de uma sociedade caracterizada pelo risco proveniente da complexidade das novas relações sociais, comerciais e profissionais que se impõem no início do século XXI. Deixamos de acreditar nas pessoas. Pasteurizou-se o sujeito para que ele não fosse capaz de sentir e emitir odores. Lobotomizou-se socialmente as pessoas. Não se reconhece ninguém como efetivamente, axiologicamente, capaz. Parte-se do pressuposto de que as pessoas não possuem capacidade de pensar.

Assim, os “lobotomizados-pasteurizados” passam a, sem perceber, acreditar nisso e a desempenharem o seu papel (ou seria apenas uma participação???) social de forma a não pensar. O cérebro passa a ser considerado apenas como algo necessário para fazer peso à cabeça e evitar que ela tombe incessantemente para um dos lados de nossos pescoços.

Com isso, já que o Estado regula tudo, o indivíduo não se vê mais compelido a pensar o que seria melhor para a sua vida e a dos demais. Quais as suas pequenas atitudes que interferem ou não na vida dos outros. Chega-se à absurda e atrofiada lógica: tudo o que não é proibido é permitido. E a cortesia fenece.

Aí, como é impossível regular-se a vida integralmente – graças à Deus, ou a quem quer que se acredite, diga-se de passagem – inevitavelmente, surgem conflitos sociais cada vez mais fúteis e que, pela inaptidão das pessoas em viver em sociedade sem a coleira ou a mão do Estado, podem ter conseqüências graves.

Hoje, diante do absurdo número de mortos no trânsito se fala em leis bem mais severas, tanto no âmbito do direito penal, como na esfera administrativa. Ou então, para evitar qualquer espécie de delito proíbe-se a comercialização de bebidas alcoólicas após um determinado horário. Proíbe-se, também, de fumar em quase todos os locais habitáveis.

Nunca causei vítimas ao dirigir meu automóvel, nunca briguei após ingerir bebidas alcoólicas e não fumo – salvo umas cachimbadas no final de semana, escondido para não ser apedrejado.

Não se trata de entrar no mérito da questão se tais medidas são adequadas ou não, apenas servem de exemplo. O que pretendo trazer à reflexão é o quanto somos oprimidos por novas leis; um número cada vez mais sufocante que nos leva à acomodação, ao não fazer nada como seres humanos no sentido de alterar as nossas relações com os outros.

A nossa inaptidão para desenvolver relações pessoais saudáveis, mesmo que, por um milagre legal, deixem de figurar no campo do trânsito, da embriaguez ou do tabaco, será transferida para outra esfera de crise e nós, infantilizados, sentaremos na calçada e choraremos até o momento em que a mãe-estado sinalize com a solução, quando, na verdade, estará agravando o problema. Ficaremos cada vez mais mimados e ensimesmados, alheios a um próximo cada vez mais distante.

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quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Celebração da Vida ou Um café com Zaratustra

Viver de forma a querer a mesma vida sempre. É o desafio que se impõe.

A celebração da vida e o entusiasmo em usufruí-la exigem o questionamento acima. Imagine-se sentado sobre o seu próprio caixão observando as pessoas chegarem para dar simbolicamente o último “olá” ou, melhor, o verdadeiro “adeus”, e descortinando-se duas opções: a eternidade do espírito (caso, de fato, exista) ou recomeçar a viver.

Certamente, a partir do medo do inexorável, a morte – paradoxalmente a única certeza da vida – optar-se-ia por viver de novo. Contudo, quando hipoteticamente dá-se tal opção (viver de novo), geralmente, sente-se o desejo de consertar o passado, corrigir os erros, não realizar determinados atos ou de tomar decisões em momentos que escaparam por entre os dedos.

Não seria tão fácil. O desfio que se impõe é se cada um de nós estaria disposto a repetir. Isso! Reprisar, na íntegra, o roteiro de sua vida, sem alterações, com os mesmos equívocos, acertos, vitórias, derrotas, ações e omissões. Os mesmos cavalos encilhados que deixamos passar continuarão passando. As mesmas barcas furadas que tripulamos afundarão. O doce, o amargo e o azedo de nossa caminhada. As oportunidades perdidas serão novamente postas à nossa mesa e tomaremos a decisão errada; atos de bravura e covardia, todos idênticos. Dores, alegrias... tudo igual. Ou seja, verificar se morremos na hora certa.

Morrer na hora certa significa viver o melhor possível para só então morrer. Não deixar nada por viver e querer a mesma vida para sempre. Repetir nossas angústias com a certeza de que ao final teremos curtido cada momento de dor até alcançar o sentimento de sua superação e a conseqüente sensação ímpar de bem estar. Termos as mesmas recompensas mais uma vez.

Intensificar a vida talvez seja a mensagem que se pretende passar. Olhar o futuro, breve ou longínquo, e ter perspectivas, sonhar... mirar o relógio como mais um detalhe que apenas nos afasta temporariamente do que realmente queremos e optamos, pois efetivamente vale a pena e vamos alcançar, ou, ao menos, termos a certeza de que fizemos o possível e fazer o possível é sempre algo a nos preencher de sentido.

Não deixe nada por viver. Celebre a vida ou tome um café com Zaratustra e faça a sua leitura.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Urbanismo e Segurança ou Descaso e Mortes


A insegurança pública se constitui em um dos maiores temores da sociedade brasileira. Seja real ou apenas aparente, aproximada da nossa realidade pela velocidade dos meios de comunicação e pelo discurso simbólico, reflete, inegavelmente, o medo. “Medo” que Paul Virilio, em Velocidade e Política, descreveu como o mais cruel dos assassinos, pois não mata jamais, mas impede de viver.

É certo que o aumento da criminalidade possui relações indissociáveis com a desigualdade, com a desestruturação do indivíduo, com a falta de perspectivas, etc.

Segurança passa por uma sociedade menos desigual, talvez menos digital, mas passa também por urbanismo.

Por mais estranho que pareça ao tema, essa esquisitice é meramente aparente. Apenas entre os anos de 1999 e 2001 o número de favelas no Brasil cresceu 150%, o Brasil possui um déficit habitacional de 7,2 milhões de moradias, o que representa 32 milhões de pessoas sem um lugar decente para viver. Sem lar.

O tal dívida é reflexo da ausência de políticas habitacionais de médio e longo prazos e da falta de preocupação com a organização do espaço urbano, em especial a ocupação do solo. O descuido nestas áreas, somados ao conforto político da manutenção da situação como ela está geram a favelização.

A favelização, em geral, dá-se verticalmente, em morros e encostas das grandes cidades. Em sua estrutura “urbanística” é formada por vielas, por barracos construídos sobre barracos, por passagens ocultas, por becos, enfim, um labirinto de madeira e cimento, capaz de dar inveja a Dédalus.

Ambiente em que o poder público, historicamente ausente, se vê, voluntariamente ou não, incapacitado de adentrar e cumprir as políticas públicas que a Constituição obriga. A disposição urbana das favelas facilita a ocultação, a prática de crimes e violências, física e psicológica, em que as vítimas são, na maioria das vezes, os que lá residem. Jogados ao morro e esquecidos aos que lá mandam.

O poder público, ciente de sua inoperância e diante da falta de preocupação com a organização efetiva do espaço urbano, acreditando que com o andar da carroça as melancias se ajeitam, fecha os olhos à ocupação desregrada. E só se recorda da situação precária em que vivem quando ocorre um desabamento ou quando traficantes se aproveitam do labirinto para organizar sua atividade e espalhar medo pelo asfalto que fica logo abaixo do morro.

Enquanto isso, a capacidade de resposta do poder público desaparece e a degradação ambiental, que antes era a desculpa para não licenciar o loteamento, já está feita.

O planejamento urbano se constitui política pública da mais alta importância. O Estado não dispõe de meios para impossibilitar a ocupação desregrada. Na Europa, os castelos e mansões localizam-se nas encostas dos morros, locais nobres. No Brasil, por serem imaculáveis pela ocupação lícita e por não haver uma política habitacional efetiva aos desprovidos, são ocupados por quem não tem onde morar.

Resultado: danos ambientais, desabamentos, mortes e ausência do Estado a quem mais necessita, os subjugados pela força e pelo medo.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Desafiando o conforto ou Vivendo os sonhos


O olhar da criança ao arriscar os primeiros passos é fixo em algum ponto do chão, mais à frente. Desviá-lo pode ser fatal para a continuidade de seu caminho; cair talvez seja o destino inexorável. Ela cai, senta, olha perdidamente em uma busca de auxílio, mas, em seguida, reinicia a sua tentativa, só... levanta-se instável, equilibra-se e vai em frente. Logo, logo, estará correndo, esquecendo-se, para sempre, da dificuldade que tivera nos primeiros passos.

A criança desafia o conforto do colo dos pais para desbravar o desconhecido. A sede por conhecer, tocar o novo e saborear a vida retira-a da posição de espectadora. Instintivamente, procura saciar a sua fome de viver.

À noite, enquanto dorme, sorri. Será que em seus sonhos ela caminha? Corre? Flutua? Quem sabe? Inegavelmente, contudo, as crianças são desbravadoras, conquistadoras de um mundo que se coloca à sua frente e, ignorando o conforto, lutam para viver os seus sonhos.

Nós, adultos, embasbacados diante da graça que apresentam fechamos os olhos para isso e deixamos de aprender com eles. Sim, pois, não raro, renunciamos aos nossos sonhos em nome do conforto, daquilo que chamamos de estabilidade – seja emocional, financeira, laboral...

A questão é o quão doloroso, ou melhor, danoso para nós mesmos, é esta renúncia. Quantas vezes as oportunidades passam e restamos parados, sentados à janela, assumindo a posição passiva de espectadores. Quantos momentos desafiadores, instigantes e cálidos atravessam nosso caminho e deixamos de assumir a posição à qual nos difere na coletividade, a de protagonistas, perdendo experiências – talvez o maior bem do ser humano. Experiência que não se confunde com idade, mas com situações vividas. Situações estas que enriquecem o indivíduo e o torna fascinante.

Dentre as várias características, classificações ou rótulos que se atribuam ao sujeito temos os “espectadores” – acomodados com a situação de vida que enfrentam – e os “protagonistas” – inquietos irrequietos que insistem em sempre buscar algo mais. Em enfrentar e superar vários desafios, muito embora tais desafios possam trazer “quedas” e algumas dores. Contudo, o horizonte descortina-se diariamente às suas frentes e, ao menos ao meu gosto, transformam as suas vidas em algo bem mais saboroso.

Inegável que cada um de nós, independentemente de nossas características mais marcantes, passa por momentos mais “espectadores” e outros mais “protagonistas”, afinal, felizmente, não somos pessoas acabadas ou concluídas, mas em permanente mutação, aprimoramento ou perecimento.

Contudo, apesar de tais momentos, a permanente manutenção e busca de atitudes protagonistas nos coloca do lado mais saboroso da vida, às vezes amargo, mas, fundamentalmente, o mais importante, mantém vivo o paladar da vida, a desafiar o conforto e a viver os sonhos.

domingo, janeiro 13, 2008

Entre lágrimas e despedidas ou Da arte de arrumar malas


Mudança: troca, substituição, alteração, modificação, permuta, inovação, transferência, deslocamento, afastamento...

Palavra ambígua. Divide nosso coração ao meio, entre a euforia incontida e a profunda melancolia. Complicado. Montanha-russa de sensações, maníaca e depressiva, uma espécie de transtorno bipolar com data marcada.

Sofreguidão.

A vontade de deparar-se com o novo ou de retornar ao seio antigo, à estabilidade das relações, ao carinho e afago priscos, longínquos, talvez o nosso mais remoto traço da memória; desatormentar o sentido. Viver mais leve, se é que o peso não é nossa idiossincrasia que nos é apenas característica sermos o que somos, o que sonhamos, o que tememos, o que nos ilumina e destrói.

Na saída são abraços, risos, lágrimas, calafrios, malas, roupas, sapatos, livros, muitos, beijos, olhos carregados, lágrimas que não se permitem suicidar e que embaçam o penhasco da íris. Sonhos abertos, novos sonhos... novos tempos.

Na chegada, o mesmo. Curioso, mas exatamente o mesmo. Alegremente o mesmo.

Vai-se, mas não se abre mão de nada que ficou para trás, ou melhor... Nada ficou para trás!! Apenas não se está mais junto diariamente, mas se carrega no peito, na memória permanentemente presente e nas facilidades das novas tecnologias.

Tal qual antes... apenas um pouco mais remoto.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Entre afagos e suspiros ou A versão tropical de “Dos en la ciudad”.

Entre o último disparo do sol escaldante e o primeiro estampido da noite, quase que por casualidade, eles se encontram na praia. Um doce sorriso cúmplice nos lábios. O gélido arrepio da apreensão do encontro situado no poço fundo do estômago. Olham-se, riem e sentam-se na areia.

Há tempo não se viam, ao menos não com a possibilidade de conversar sem estarem premidos pelo tempo, pelas pessoas, pelos compromissos. Aquela noite era só deles. Tal percepção transformava um pequeno em um largo e brilhante sorriso que refletia nas estrelas.

Logo abriram suas bocas e a conversa fluía solta, leve, inebriando-os lenta e vagarosamente, intimamente... o diálogo os entorpecia, tornado supérfluos o vinho e o fumo.

O tempo passou, horas... doces horas. Aliás, parecia não haver tempo, entorno, espaço, eram os dois, sós, apenas os dois na cidade. Nada mais em volta, unicamente suas vozes e o calor da pele de cada um que, aos poucos, se sentia. Encostavam-se em meio à fala e a mão de um repousava carinhosamente no braço do outro. Dedos entrelaçavam-se.

Ela falava mais, gesticulava mais. Ele, encantado, ria e a adorava. Ela perguntava como e quando havia decidido partir, se tiveras filhos e se era feliz. Ele, se ela estava sozinha, e, Ela, sim, que sabia fingir...

A noite passou e quando perceberam, nada mais, nenhuma luz além da lua iluminava a praia, todos dormiam. Dormiram ali. Entre abraços, afagos, carícias, cheiros, mas, curiosamente, sem beijos...

Ao primeiro raio de sol foram para casa. Dele ou dela... tanto faz... e proibiram-se mutuamente de de lá sair. Ficaram o final de semana. Sim, com beijos. Muitos. Sumiram. Desapareceram para o mundo e seus telefones celulares ao perceberem a magia do momento, decidiram, espontaneamente, parar de tocar. Silêncio. Ou quase isso.

Na segunda-feira, quando ele acordou, percebeu que ela já não mais estava ali... mas sorriu. Naqueles dois dias, foram só eles e mais ninguém, apenas dos en la ciudad.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Entorpecidos de vida ou Do vício

O desafio da vida é o de vivê-la intensamente... o ressuscitado carpe diem de Sociedade dos Poetas Mortos. Ir à floresta para sugar a essência da vida, expulsar e deixar apodrecer o que não é vida, para não correr o risco de, ao morrer, descobrir que de fato não vivi... a frase adaptada de Henry David Thoreau[1], o mesmo do importante texto Desobediência Civil, talvez seja uma bela missão de vida.

Dessa provocação defronta-se com o vício pela vida ou por aquilo que nos circunda, pelo nosso entorno, o nosso microcosmo – por mais macro que tentemos transformá-lo. Pessoas, animais, livros, músicas, práticas esportivas, entorpecem a nossa vida de sentido. Adoçam o cotidiano. Fazem-nos sentir mais vivos, mais nós mesmos. Paradoxalmente, às vezes, nos possibilitam fugir de nossa rotina, como se um universo paralelo de refúgio mental se abrisse a cada momento, aliviando o peso das atividades costumeiras, como uma busca permanente daquilo que de fato somos, da nossa essência.

É justamente da confrontação de nossas atividades rotineiras com tais momentos que emerge a tensão da necessidade de satisfação do vício pela vida o que, para que esta possa fazer sentido, implica, necessariamente, em buscar que cada dia seja superado em satisfação, em ganho pessoal, em experiência, em prazer, em sentir-se bem, pelo de amanhã.

Não se trata de uma busca histérica de aproveitar melhor fisicamente o dia, mas de fazê-lo valer mais. Atribuir às práticas ativas, de reflexão ou de contemplação maior valor para que, necessariamente, tragam maior prazer. É poder conviver com pessoas, atividades, situações, objetos que afastem a sensação de que falta algo, que erradiquem a possibilidade de sensação de um espaço vazio, mínimo que seja.

Quando percebemos tais espaços insípidos, significa que nossos vícios pela vida estão pulsando e nosso dever conosco, para não corrermos o risco de não termos vivido é de sugá-los e, por conseqüência, deliberadamente, viver.
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[1] "I went to the woods because/I wanted to live deliberately./I wanted to live deep/and suck out all the marrow of life/ To put to rout all that was not life,/and not, when I had come to die,/discover that I had not lived.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Acorrentados ou Celebridades


Dia 03 de dezembro, Palhoça, região metropolitana de Florianópolis: a imprensa, subitamente comovida com a situação carcerária brasileira, caótica há mais de duas décadas, flagra presos acorrentados em frente à Delegacia de Polícia. Sim, um município do sul do Brasil, em Santa Catarina, “uma terra de mil jeitos. Jeitos de natureza e jeitos humanos” – ao menos é o que diz o site (www.sc.gov.br/conteudo/santacatarina/turismo/contrastes/index.html).

O Estado do “quarto maior” parque industrial do país acorrenta seus presos na rua. Como bichos. O fato, segundo a notícia, tragicomicamente, é festejado pelos próprios acorrentados, celebridades da desgraça. Qual a razão de tal bizarra alegria? Lá dentro, em uma cela para QUATRO pessoas, DEZESSETE presos se amontoam, dividem espaço, mau cheiro, um vaso sanitário, tuberculose, pulgas, sarna, vidas e desventuras.

Em toda a grande Florianópolis estima-se que 250 pessoas estão presas em delegacias. O que se explica haja vista a miserabilidade do estado catarinense: que não exporta, que não tem turismo, que não tem indústrias... Claro que se tal fato ocorresse no interior do Piauí seria caso de preocupação. Mas naquela terra, pela prosperidade, penso ser muito difícil haver lotação de delegacias ou cabresto de presos. Inevitável. Para tratar do assunto, somente com doses de raiva ou de ironia.

Em 1998, a ONG Humans Rights Watch publicou um relatório denominado “Brasil atrás das grades”. Tratava-se de uma pesquisa realizada em 1997 e 1998 por Joanne Mariner, em co-autoria com James Cavallaro, que teve por objeto a análise in loco de quarenta estabelecimentos penitenciários, nos estados do Amazonas, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo e Brasilia-DF.

E há quase dez anos, a anamnese carcerária levou ao diagnóstico de que o Brasil descumpre a Convenção Americana sobre Direitos Humanos e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, que nestas ou em outras palavras ditam que toda pessoa privada de liberdade deve ser tratada com respeito devido à dignidade inerente ao ser humano. O Brasil é ilegal!


Porém, Delegados, Promotores e Juízes, em sua maioria, afirmam que não lhes resta alternativa, já que “a lei deve ser cumprida”. Se o sujeito furtou, deve ser preso, afinal, o Código Penal prevê pena de um a quatro anos para quem pratica tal espécie de delito! E aí, vem à lembrança uma música de Raul Seixas (Ouro de Tolo), em que ensina:


“E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial,
Que está contribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social”


Perfeito!! Sob o discurso da legalidade nega-se a própria legalidade do Estado. Ou seja, o cumprimento da lei é exigido apenas do indivíduo. Poucas vezes se exige do próprio Estado o respeito às leis. Quando a prisão não tem condições de “hospedar” em condições minimamente adequadas à dignidade do sujeito, não pode “abrigar” o indivíduo. O Estado não aprendeu que pela redução da população carcerária resolve-se o problema da superlotação e o executivo economiza seus gastos com prisões.

Então, “respeita-se a lei” encaminhando um infeliz ao cárcere pelo “perigosíssimo” delito de tentativa de furto de um telefone celular e nega-se a ele condições mínimas de dignidade. Certamente, a danosidade social gerada pelo furto tentado deve justificar tal atrocidade. Atrocidades estatais denunciadas já por Marat. O revolucionário francês denunciava o poder estatal como um mal em si mesmo, predestinado à violação dos direitos naturais.

Um Estado que desrespeita a lei está condenado ao descaso de seu povo com a legalidade. Marat, mais uma vez, afirma que o Estado deve cumprir suas obrigações sociais para que os indivíduos respeitem as limitações legais. O respeito à dignidade humana é uma obrigação social do Estado, positivada nos Tratados e na Constituição, aliás, é em torno desse conceito que ela se fundamenta.

Finalizando, já peço desculpas pelo mau humor, mas já que se falou em Raul Seixas, talvez outra estrofe da mesma música sirva para que nos compreendamos melhor:

"É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua
Cabeça animal!!!!

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Entre sonhos e pesadelos ou da saúde mental.


A noite chega e o relógio sinaliza: ou corre-se para a cama, ou o dia seguinte começará com a dolorosa sensação de que o nosso corpo está pesado demais para se erguer. Estranho. Ao mesmo tempo em que dormir parece uma perda de tempo, não queremos nos desvencilhar do estar alheio ao mundo, ou melhor, estar vivendo o mundo dos sonhos.

Só eles explicam a nossa necessidade de dormir mais do que o tempo biologicamente necessário à recomposição física. A dificuldade de enfrentar a gravidade em pé.

Quantas vezes buscamos desesperadamente voltar ao mundo dos sonhos para, da primeira fila de um cinema particular, assistir qual o final traçado pelo nosso roteirista inconsciente naquela história perdida. Às vezes até conseguimos. Será que conseguimos?

Um amigo tabagista havia conseguido livrar-se do vício. Fazia seis meses que suas aflições, angústias e prazer não eram incandescidas pela rouca brasa do cigarro. Certa noite, via-se, no sonho, em um lugar paradisíaco. Sentado. Só. A observar aquela linda paisagem e desfrutar do prazer que a nicotina lhe conferia. Subitamente no imaginário, deu-se conta que não fumava mais. Acordou. A sensação de angústia que esmagava o seu peito era brutal. Queria o sonho de volta para sentir o prazer da sensação perdida. As férias do vício acabavam ali. Era dever acender um cigarro, imediatamente.

Assim, nosso inconsciente brinca conosco, sonha-se com pessoas queridas perto de nós, com sujeitos que nunca vimos ou que temos uma relação distante, com fatos aparentemente reais, conectados ou não, com histórias de detalhes sem sentido (ao menos aparente), com situações doces e outras nem tanto. Tal suave brincadeira, contudo, é fundamental para a nossa saúde mental, a fim de que possamos suportar cada vez mais as pressões do cotidiano, para que se possa superar limites, obstáculos e, até, imperativos que o mundo real nos traz.

Cultive o sono e seus sonhos, inclusive os ruins, anote-os. Quando se acorda no meio da noite, suando, é salutar puxar o caderno, a caneta, e escrever o que nos levou a essa sensação. Aliás, se fizéssemos isso mais seguido, teríamos melhores condições de compreender melhor a nós mesmos.

Sonhe muito. Bons sonhos! Ah, mas não se esqueça: não desista de transformar os bons em realidade.

sábado, novembro 24, 2007

O último dia ou a colheita de uma plantação mal elaborada.

Nunca a chegada de um aniversário parecera-lhe tão amarga. A marca do charuto permanecia a mesma há 20 anos, seus reflexos, do ano anterior para o atual, não haviam se deteriorado além dos efeitos naturais do tempo. Intelectualmente ainda era admirado por todos pela cultura e raciocínio jurídicos, pela clareza de exposição e poder de síntese. Percebia que as suas circunstâncias não se diferenciavam muito das que lhe rodeavam quando completara 69 anos.

Mas este ano, havia algo mais. O puro cubano parecia mais amargo e, certas vezes, ardia-lhe a garganta. O tempo passava como que em uma velocidade nunca antes alcançada. A caneta e o computador pareciam não serem mais seus amigos, confidentes e companheiros. Sentia-se mais curvado, mais lento, mais áspero, enfim, menos ele. Percebia que sua carteira de identificação profissional apagava-se a cada dia.

De fato, a única mudança em relação à nossa personagem foi o fato de, aos 70 anos, ter chegado o dia de aposentar sua toga. O temido recesso compulsório chegaria em meio à fumaça e o calor das velas, do doce sabor da torta, do macio beijo de sua esposa, da emoção dos filhos e dos gritos, sorrisos, algazarra e brincadeiras dos netos.

Eram 23 horas e 15 minutos da véspera do temível terrível dia. Resolvera fazer um rescaldo de sua vida e percebeu que pouco se recordava da infância, da adolescência e dos seus tempos de faculdade. Sua memória parecia que se iniciava há 41 anos e quinze dias, no dia em que fora aprovado do concurso de ingresso à Magistratura.

Lembrou-se de casos difíceis, em que suas sentenças foram elogiadas pelas cortes superiores; arrolou, também, seus equívocos e percebera que, efetivamente, na maioria destes, a razão não caminhara ao seu lado. Catalogou as suas sentenças mais importantes, atribuindo tal adjetivo às que lhe deram a convicção de que fora instrumento da justiça.

Não esqueceu os colegas que lhe cercaram na vida, dos amigos e dos nem tanto, dos mais jovens e dos mais antigos e lembrou-se de um conselho dado por um antigo membro de “seu” tribunal no dia de sua posse: - Nunca de esqueças que a tua decisão deve ser tomada como se fosse a última! E que entre capa e a última folha dos autos, existem pessoas!

Sempre seguira tais ensinamentos e, por isso, fora um juiz respeitado e, por que não dizer, amado por onde passou. Por um momento, deixou de sentir o vazio e a dor física da separação forçada.

Mas passou por pouco tempo. Logo depois, voltou a sentir com intensidade ainda maior o gosto amargo e aquele buraco em seu estômago. Somava-se a isso a sensação de ter uma bola de golfe entalada na garganta. Mesmo assim, foi dormir.

No dia seguinte, em sessão realizada no “seu” tribunal, entregou a toga e despediu-se da judicatura. À noite, recebeu os netos e familiares que, apesar dos festejos, perceberam que algo havia desaparecido naquele olhar sempre vibrante e indagador...

Aos 73 anos de idade, ao invés de estar prestes a festejar mais um aniversário, via, além de seus familiares, alguns companheiros de judicatura chegarem lenta e silenciosamente ao seu funeral. Aos poucos seus ombros haviam se curvado ainda mais e problemas de saúde, até então prerrogativa de outros, passaram a fazer parte do cotidiano. Após a compulsória, durara pouco mais de três longos e dolorosos anos.

Sua vida tinha perdido sentido. Não decidia mais as pretensões alheias. Os bajuladores de plantão deixaram de reverenciá-lo. Até mesmo sua família procurava-o cada vez menos. Enfim, perdera a sedução, o poder. Atribuiu sua derrocada ao fim obrigatório de sua função jurisdicional.

Como salientado, fora um grande juiz. Porém, julgara mal a sua própria vida. A decadência não veio com a proibição legal de julgar, mas sim, no dia de sua aprovação no concurso. Naquele momento, esquecera quem era e suas origens; de como era bom caminhar na areia e sentir o calor do sol e o carinho da brisa em seu rosto; de sonhar; de ler poesia e de cantar; de falar e rir de tolices, enfim, de levar a vida sem que ela se confundisse com o cargo que desempenhava. Esquecera que a função pública era passageira e que a pompa e a liturgia não eram suas, mas do magistrado que deixara de ser. Confundiu-se com a função, viveu-a intensamente, mas esqueceu que a vida é muito mais que apenas o cargo que se desempenha.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Da agonia da espera ou Algo mais pesado.

Agonia, pelos gregos, era concebida como a luta contra a morte. Talvez nenhum sentimento seja tão próprio do ser humano, tão natural, intrinsecamente atrelado à condição humana. Há algum tempo li Contos de Amor e Morte, de Arthur Schnitzler, o primeiro médico/escritor a explorar o subconsciente na literatura. Ontem, o acaso me fez encontrá-lo novamente – o livro, não Schnitzler, que se foi em 1931.

O segundo conto do livro trata da paixão levada às últimas conseqüências por um poeta que, enamorado pela personagem que ele criara, vem a morrer no momento em que conclui o poema em que ela também se fora. A agonia do narrador e do poeta se confundem, esse na da espera e no medo da perda do amigo, este nos momentos de sofrimento causados pela sua própria pena na sua paixão que, submersa novamente no nada, leva-o junto pela mão.

A agonia da espera é a sensação talvez melhor explorada nos contos em questão e, eu, não só, mas, também, influenciado por eles, resolvi tratar do tema.

A espera e o sentimento que a acompanha sempre foram objeto de desconforto e, de certa forma, dificuldade de aceitação pelo ser humano.

Por qual razão, o avião nem parado está e as pessoas que fizerem um vôo de pouco mais de uma hora levantam-se e acotovelam-se para saírem primeiro da aeronave? Mesmo que ainda tenham que aguardar por dez ou quinze minutos que sua bagagem chegue?

Qual o significado de se olhar repetida e compulsivamente para a tela de um telefone celular em silêncio, enquanto espera-se a consulta médica ou a chamada do número de nossa senha?

Será que apertar mais de uma vez no botão de chamada do elevador fará com que ele chegue mais rápido?

Tudo isso, ao que parece, se relaciona com essa agonia contida na situação da espera. Muitas vezes tal agonia se reflete em situações sem significado, como nas acima citadas, mas, certamente, ali não se congelam. A agonia da espera do reconhecimento profissional, da censura diante de um equívoco, da indefinição do futuro seja a curto, médio ou longo prazo, da espera de um sinal correspondente ao fascínio por outra pessoa, do resultado do exame médico realizado, da espera do diagnóstico adequado ou de um doador compatível, são exemplos mais precisos dessa espécie de dor gerada pela espera e que alteram as nossas reações frente ao mundo e, até mesmo, a compreensão real de seu significado.

Muitas vezes, tal sensação ou sentimento, se não bem tratado e dimensionado pelo sujeito, pode conduzir a caminhos escuros, a labirintos que o impedem visualizar o dia seguinte ou de perceber uma perspectiva mais favorável. Por isso que, comumente, agonia e depressão se confundem, ou uma leva à outra, ou a primeira como um sintoma da segunda. O peso de tal situação pode petrificar o sujeito sem dar-lhe tempo para perceber a dificuldade em que se encontra, retirando-lhe o prazer de usufruir das coisas mais banais e, ao mesmo tempo, mais belas da vida.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Ao lado do caminho do rap blim-blim.

Em tempos em que nossas rádios são bombardeadas pela batida pouco criativa, monótona e enjoativa do "rap blim-blim", onde somente circulam "shake that butt", candy shops, lolypops e murmúrios ao invés de vozes, penso ser necessário trazer uma letra de verdade. De Fito Paez. Uma que fale de coisas que realmente importem ou devam fazer algum sentido além da libido.

Al lado del camino

Me gusta estar al lado del camino
fumando el humo mientras todo pasa
me gusta abrir los ojos y estar vivo
tener que vérmelas con la resaca
entonces navegar se hace preciso
en barcos que se estrellen en la nada
vivir atormentado de sentido
creo que esta, sí, es la parte más pesada

En tiempos donde nadie escucha a nadie
en tiempos donde todos contra todos
en tiempos egoístas y mezquinos
en tiempos donde siempre estamos solos
habrá que declararse incompetente
en todas las materias de mercado
habrá que declararse un inocente
o habrá que ser abyecto y desalmado

Yo ya no pertenezco a ningún "ismo"
me considero vivo y enterrado
yo puse las canciones en tu walkman
el tiempo a mi me puso en otro lado
tendré que hacer lo que es y no debido
tendré que hacer el bien y hacer el daño
no olvides que el perdón es lo divino
y errar a veces suele ser humano.

No es bueno nunca hacerse de enemigos
que no estén a la altura del conflicto
que piensan que hacen una guerra
y se hacen pis encima como chicos
que rondan por siniestros ministerios
haciendo la parodia del artista
que todo lo que brilla en este mundo
tan solo les da caspa y les da envidia.

Yo era un pibe triste y encantado
de Beatles, caña legui y maravillas
los libros, las canciones y los pianos
el cine, las traiciones, los enigmas
mi padre, la cerveza, las pastillas, los misterios, el whisky malo
los óleos, el amor, los escenarios
el hambre, el frio, el crimen, el dinero y mis 10 tías
me hicieron este hombre enreverado.

Si alguna vez me cruzas por la calle
regálame tu beso y no te aflijas
si ves que estoy pensando en otra cosa
no es nada malo, es que pasó una brisa
la brisa de la muerte enamorada
que ronda como un ángel asesino
mas no te asustes, siempre se me pasa
es solo la intuición de mi destino.

Me gusta estar al lado del camino
fumando el humo mientras todo pasa
me gusta regresarme en el olvido
para acordarme en sueños de mi casa
del chico que jugaba a la pelota
del 49585
nadie nos prometió un jardin de rosas
hablamos del peligro de estar vivo.

No vine a divertir a tu familia
mientras el mundo se cae a pedazos
me gusta estar al lado del camino
me gusta sentirte a mi lado
me gusta estar al lado del camino
dormirte cada noche entre mis brazos.

sábado, novembro 03, 2007

Menino invisível

A chuva fina, delicada, salpica cristais que, lentamente, insistem em dificultar a visão por trás do pára-brisa. O ritmo, cadenciado e monótono do limpador, prenuncia mais uma tarde molhada e preguiçosa, sem novidades. Luz vermelha. Pare!

Por entre a fila de veículos, um menino, certamente com uns dez anos de idade, embora com aparência de sete ou oito, com a pele brilhante da água que cai, vende balas de goma. Ou melhor, tenta.

Na parte de dentro, bem nutridos e cheirosos, secos, homens e mulheres, ignoram por completo aquele pequeno sujeito que oferece doces em meio à amargura do tráfego: - Tia, vai uma bala? – Tio, ajuda eu, compra uma balinha!

Resposta: - ... (SILÊNCIO).

Vidros fechados, talvez um aceno negativo, às vezes um olhar. Um “não” raramente se houve; um “muito obrigado” seria motivo de festa.

Olho aquela criança e vejo um sujeito de direitos. Direitos sonegados, é verdade, mas, ao menos, potencialmente. Percebo, porém, que a maioria não vê. Não enxerga a criança. Ignora-o. Não o percebe nem mesmo como um sujeito.

Recordo de um amigo que, morando na aventura européia da mochila, resolveu ganhar alguns euros servindo chope em um show. Ao final, sentiu-se arrasado. Servia a bebida, recebia o dinheiro e ninguém lhe olhava nos olhos. Era um barril ambulante, um objeto, nada mais.

Volto ao menino, o sinal ainda fechado, tal qual as janelas dos carros, tal qual o rosto dos motoristas, tal qual a nossa possibilidade de perceber o outro como ser humano.

Passa o tempo e dez anos depois, o menino, quase homem, ao invés de oferecer doces no sinal, bate na janela oferecendo outras balas. Menos doces, de chumbo. Nesse momento, olhamos para os seus olhos, clamando para que nos poupe a vida, pois, afinal, somos sujeitos de direitos e temos nossos filhos, nossa família para cuidar. Reflito: ele não tem obrigação nenhuma de nos ver assim.

A cada ato em que neutralizamos a existência do outro, transformando pessoas em invisíveis sociais, meninos-invisíveis, no caso, estamos negando o direito de alguém ser reconhecido como pessoa. Desumanizamos o outro e, hipocritamente, esperamos que ele nos veja como pessoas, como alguém que possui direitos.

A invisibilidade social se constitui, sem dúvida, em uma das principais causas da crueldade dos atos criminosos do cotidiano. Criamos uma dicotomia social que impede, de lado a lado, compreender o outro como humano. Perceber nele aflições, medos, dificuldades e pesadelos pelos quais nós mesmos passamos.

O que pensaríamos do nosso filho, naquele mesmo sinal, com aquela mesma chuva e com a caixa de sapatos embaixo do braço repleta de balas de goma, ironicamente, doces em uma vida pra lá de amarga?

No mínimo, as lágrimas seriam um dever!
Reflita. Sinal verde. Siga!

sexta-feira, outubro 26, 2007

Da incompreensão

Compreender os momentos vividos, os sonhos da noite passada, os gestos, atos, palavras e sinais se constituem em condição necessária à própria auto percepção do ser como sujeito. Tal situação não se altera quando a incompreensão se revela ao olhar do outro, quando a nossa forma de ver, sentir, agir e, claro, ser, não é “lida” tal qual a concebemos escrever. Em verdade, piora.

Paul Virlio disse certa vez (in Velocidade e Política) que o medo é o mais cruel dos assassinos, pois não mata jamais, mas impede de viver. Diria eu que a incompreensão é a mais violenta das exclusões, pois impede ao sujeito ser reconhecido da forma como ele próprio se vê. Uma espécie de espelho de dupla face, em que a imagem refletida do lado externo não corresponde à daquele que nele se reflete.

Quantas vezes a incompreensão de um ato, por mais doce, terno ou mesmo bandido que tenha sido, levou-nos a situações constrangedoras, dúbias, admoestações e injustas críticas. Abstraindo-se da questão do bem e do mal, conceitos que não possuem uma compreensão pura em si, é a inversão e o julgamento do ato que leva ao acre sabor da injustiça.

Quem, criança, nunca foi reprimido indevidamente por um ato que não cometera? Sim, aquela vez fora o vento que, empurrando a cortina, derrubara o vaso de cristal. Apesar disso, o castigo se impunha, como se nós, crianças, pequenas encarnações de Eolo ou Lúlio o fôssemos. E ali sentíamos tal gosto pela primeira vez.

Às vezes não rimos e nos vêem rir, não choramos, mas nos vêem chorar, nos olham, nos julgam e rotulam condutas ou conceitos que se dissociam dos nossos sentimentos, aspirações e finalidades. O julgamento do incompreendido é a concretização da injustiça.

Não raro, somos nós a colocarmos a venda da incompreensão nos nossos olhos e a deixar de perceber, no outro, condições mínimas que o concretizam como sujeito.

Ignorar a condição do outro significa negá-lo enquanto ser humano; negá-lo enquanto vontade; negá-lo enquanto existente. Desconstruí-lo. “Desexisti-lo”.


(Eolo e Lúlio, respectivamente, os deuses do vento nas mitologias grega e romana)